Dia após dia, letra após letra. Tudo se constrói, sendo o tempo o segredo do mundo.
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Todos os textos foram escritos por Rodolfo Bonfim Ribeiro, que nessa altura da vida possui vinte e um anos e mora em Salvador, na Bahia.
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Quinta-feira, Agosto 03, 2006
- Quando estou deitada assim fico pensando no que tem aí dentro.
- Aqui? No meu peito?
- É, dentro do seu peito.
- Ha, é segredo.
- Me conte, por favor!
- De jeito algum.
- Sério?
- É que só vale a pena vendo.
- Sei... Legal se eu pudesse ver.
- Quer ver?
- Como assim?
- Quer ou não quer?
- ...
- ...?
- Quero.
- Ok.
Levantou, abriu a gaveta do criado-mudo, procurou lá dentro com a mão, puxou uma faca de acampamento e empurrou-a contra o peito até a lâmina entrar por completo. O sangue jorrou no rosto da menina em uma nuvem vermelha e em jatos dispersos por todo o quarto. Serrou os ossos da caixa toráxica e tirou um pedaço retangular do próprio corpo. O sangue vazou um pouco mais enquanto ele caia no chão viscoso, morto.
A menina permaneceu parada, sentada na cama por duas horas, coberta de sangue, incrédula, em choque, olhos abertíssimos. Tomou coragem, desceu da cama, rastejou até o corpo e aproximou o rosto lentamente do buraco feito pela faca de acampar. Olhou de perto e viu um buraco escuro, algo de vermelho enegrecido, como uma poça límpida de coloração estranha. Piscou uma vez e percebeu pequenos pontos brancos, cintilantes como estrelas, espalhados por toda a cavidade aberta no peito do rapaz. No centro da imagem um ponto maior, diferente, crescia aos poucos, tomava forma aos poucos, ficava cada vez mais nítida. Piscou novamente e o que viu foi insuportável: deitados numa cama ela e o rapaz. A cabeça dela repousava no peito dele, ela dizendo que só tentava imaginar o que é que ele tinha no peito, ele dizendo que não ia dizer, que era segredo, que só valia a pena a coisa à olhos vistos, ela dizendo que queria ver, ele dizendo que ia mostrar, ela a pessoa mais contente do mundo.
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1:36 AM
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