:: Polietileno ::

Aço escovado, faz de conta que sou eu.
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:: Quarta-feira, Dezembro 28, 2005 :: Comments:

- Quem vem lá?
- Sou eu, teu amigo.
- Ha, meu amigo. Mantenha-se longe, já daqui sinto a aspereza da tua mão cortando-me as costas.

- Quem é?
- Somos nós, a tua família.
- Minha família? Lamento, não os reconheço.
- Mas somos nós realmente.
- Acredito em vocês, mas não os reconheço.

- Alguém aí?
- Seu eterno amor.
- Aproxime-se da luz, não consigo vê-lo.
- Não posso, tenho aversão.

- Pois não?
- Sou eu, a felicidade.
- E desde quando é tão pequena?
- Desde há vinte anos.

- Identifique-se.
- Chamam-me arrependimento.
- E onde o senhor está?
- Olhe para trás.

- Quem é você que aperta-me o peito?
- Sou a única que pode fazer tal coisa.
- Não entendo.
- Dê-me mais algum tempo e você entenderá.
- Quanto tempo?
- Pelo visto, alguns dias.
- Com você tive uma conversa longa.
- Está cansado?
- Estou cansado.
- Sossegue, descansará não tarda.
:: RODOLFO RIBEIRO 8:32 PM [+] ::
...
:: Segunda-feira, Dezembro 05, 2005 :: Comments:
Estou morto. Partido ao meio, nenhuma unha, seco até a alma. Acabou. De verdade mesmo, nenhuma gota de mojo para me felicitar, é o medo que se aproxima. Não quero ninguém por perto nessa hora, vão embora por favor. Deixem-me de lado, de bruços, coberto até a face. Quem são vocês para falar alguma coisa? São merda nenhuma. Tampo o bueiro, fico dentro. Desse cheiro é que gosto. Mentira: não gosto de nada. Mentira: não amo ninguém. Mentira, verdade é o que eu quero nesse resto de vida. Olho as minhas pegadas, nada vejo, atrás há nada. É uma pena, essa de viver e olharparatrásenãovernada. É uma pena, essa de viver e não fazer nada, não valer nada, não valho nada. Verdade: valho nada. Verdade: morto é lugar, o velho mentiu. As pernas torcidas para trás, os dedos enfiados nos olhos. Nada vejo, nada sinto. Quem vê? Quem sente? Ninguém vê e ninguém sente, todos apontam, todos mentem, dão desculpas. É uma pena, é isso que eu vivo, é nisso que eu morro. Que o Diabo me leve, que nunca me tragam de volta, que me larguem no inferno, que minha pele nunca pare de queimar, que a agonia seja eterna. Cortem meus mamilos. Acabem logo de uma vez. Acabem-se logo de uma vez, após. Me deixem em paz, é isso que peço, não retiro uma palavra sequer do que disse. Ao se olharem no espelho espero que morram. E eu sei que vão morrer. E não demorará. É uma pena. É uma dó. Meu Deus, acabo-me de chorar.
:: RODOLFO RIBEIRO 9:16 PM [+] ::
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