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:: Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005 ::
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O balconista da lanchonete vizinha às escadas disse:
- O senhor tome cuidado com aquele degrau, a pedra está solta.
- Está bem.
É uma pena que só se necessite de um empurrãozinho para que toda a gente pense que o pobre homem que acaba de rolar pelas escadas abaixo tenha realmente quebrado as pernas, ou, como se sabe também da imaginação de alguns, que o coitado acabou mesmo por morrer. Tudo mentira, tudo fruto da cabeça de indivíduos que, somente por ter constado no texto o degrau de pedra solta e o irônico "Está bem", juntamente com a pequena introdução pessimista, já vão pensar o que não se deve. É impressionante como as pessoas tem essa inclinação distinta, perfeitamente apontada para baixo. É como já foi dito, só precisa de um empurrãozinho de nada e tchum, vamos todos cair sem parar.
O homem que acaba de rolar as escadas se levantou sem ajudas. Não quebrou perna nem osso algum. Um verdadeiro exemplo de saúde e firmeza, perfeito para esfregar na nossa cara, idiotas de corpo e alma, cabeças-baixas da pior espécie. Nós tropeçamos em qualquer degrau. Nós somos o que pode ser chamado de "humanamente possível". Nós aqui somos a pior coisa que já pôde acontecer nas nossas próprias vidas. Somos infelizes por convicção, somos feitos de nada, de coisa alguma, vamos todos para o inferno, vamos ser negados por toda a história da eternidade e o que vier depois disso. Somos aqueles que planejam o suicídio com quartoze anos. O meu maior medo, o que me assusta mais nessa vida é a cara de decepção das pessoas quando viram que eu não quebrei nem um ossinho desse corpo que Deus me deu e um dia há de me tomar, maldito seja. Você vá me desculpando, minha querida, mas é que isso é o que realmente me vai por dentro. Eu tenho pena de mim mesmo e de você. Eu sou um amargo. Eu sou a imagem de Deus, aquela que ser nenhum poderia se queixar de ser, mas eu cuspo na minha mão e a esfrego na minha cara. Eu esfrego esse exemplo na minha cara.
:: RODOLFO RIBEIRO 8:07 PM [+] ::
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