:: Polietileno ::

Aço escovado, faz de conta que sou eu.
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:: Terça-feira, Novembro 23, 2004 :: Comments:

A maçaneta estava até um pouco escorregadia, girou umas duas vezes e acabou entrando mesmo. Passou pela sala, corredor, viu que a filha chupava o dedo na cama. Foi para a suíte. As cortinas entreabertas, aquela luz branca que batia na parede, a mulher que dormia. Tirou as roupas mais pesadas, largou a sacola no chão e ficou lá olhando, em pé com os braços largados. Aquele cabelo solto, uns fios que caiam pela testa, os dedos que tocavam levemente o rosto, os olhos bem cerrados, as ruguinhas entre as sobrancelhas daquele sonhar compenetrado, a camisola cor de pérola, os travesseiros bem altos, que é isso que estou sentindo. Chegou-se na cama, se abaixou e deu-lhe um beijo de lábios cheios na bochecha. Aquele cheiro de pessoa amada, incomparável, insubstituível, que invade o corpo, deixa o coitado leve, leve, que me ofusca o olhar, que vai me levando para um lugar diferente, bem longe daqui, bem perto de ti, lugar maravilhoso, meu Deus, não consigo fazer outras coisas, só penso em você, minha querida. Não se arriscou nem a tocar na mulher, infeliz desse homem. Mas não teve jeito, ela acordou. As mãos ficando quentes, o coração parecendo que vai explodir, aqueles olhos que me olham, que me engolem. Outro beijo inevitável, a moça sem entender nada, era só o marido que chegava do trabalho. As perguntas "Como foi que passou o dia? As pessoas foram verdadeiras contigo? Andou pensando em mim, por acaso?". O marido, que já não aguentava de tanta felicidade, respondeu olhando para os lençóis amassados "Você é a única pessoa desse mundo todo, esse vazio que é o meu trabalho, o meu carro, o meu asfalto, os meus cachorros atravessando as ruas, as minhas árvores que passam, as minhas vontades todas, amor da minha vida". Apegou-se aos lençóis - outro beijo na mulher era morte certíssima.
:: RODOLFO RIBEIRO 3:17 PM [+] ::
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:: Sábado, Novembro 13, 2004 :: Comments:
Acabou de decolar, tudo se desgrudava do chão e só pensava "Meu Deus, o que é isso que está acontecendo? E eu nem beijei a minha mãe hoje.". Imaginem que não tivessem peso, toda a paisagem subisse, o som parasse, agora tudo é lento, o céu acabou de aparecer, todo ele. Decolava, em oblíquo movimento, como uma seta lançada para cima e que depois cai com toda a velocidade, perfurando, rasgando, ameaçando "Estou chegando, não perde por esperar, seu escroto.". E era isso mesmo, mas era muito pesado e grande. Grande também. Eis a sensação nesse extao momento: o vento passando rapidíssimo, batendo nos olhos, parecia que os olhos iam rasgar, sabem como é, os cabelos não paravam quietos, olhava para os lados e via os amigos com as cabeças viradas todas para a frente, aquelas caras de agoniados, com as bocas abertas, gritando alguma coisa que não conseguia entender, claro, e o fundo que não parava de se mover, que desespero. "Mas que porra é essa, custo a acreditar que isso acontece comigo. Com os outros não me importo, fazem parte da cena. Mas eu? Eu que nem fiz aniversário esse ano?" A violência foi tremenda. Ouviu o barulho, sentiu o estrondo, tudo se sacudindo. Agora os ossos é que começaram a quebrar, depois da cabeça ricochetear no banco, esbagaçando-lhe o nariz. Nenhum braço estava no lugar, não sentia as pernas. Da amiga do lado se via muito pouco, vermelhinha que só ela. O da frente nem estava sentado mais no banco, devia etá por algum lugar lá fora, esmagado contra o chão, sem mover dedo, com os líquidos todos fora do corpo, os ouvidos tapadinhos, nessa tristeza infinita que é estar com o rosto enfiado na terra.
:: RODOLFO RIBEIRO 7:20 PM [+] ::
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