Dia após dia, letra após letra. Tudo se constrói, sendo o tempo o segredo do mundo.
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Todos os textos foram escritos por Rodolfo Bonfim Ribeiro, que nessa altura da vida possui vinte e um anos e mora em Salvador, na Bahia.
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Domingo, Novembro 05, 2006
O último dia de aulas era o primeiro dia do verão, no que resolvemos ir à praia. Nós seis, os melhores da nossa turma e os melhores amigos pra nós mesmos e por comparação. Em pé, no parapeito da orla, cada um olhava o mar com suas ondas, a praia com a sua areia e o céu sem suas nuvens. O vento nos pegava pelos flancos e batia em nossas fardas e nos nossos cabelos e eles balançavam. Por causa do sol, tínhamos os olhos cerrados e a testa crispada. As meninas seguravam as saias e os meninos metiam as mãos nos bolsos das calças. Tirei uma das minhas e peguei uma das dela, e ela se virou pra mim. Seu cabelo era muito e, com o vento, mascarava sua testa e um dos seus olhos, enrolando-se no seu pescoço e de resto esvoaçava para o lado em muitas ondulações repetidas. Com a outra mão ela ainda segurava a frente da saia, volta e meia o fundo, dependendo de como as coisas ficavam. Alguns instantes nos olhamos e eu achava-a a mais bonita do mundo. Na minha careta de insolação, ri um pouco só com os lábios e ela riu também, só com os lábios. Então, ri com os olhos e com os lábios e ela me abraçou de felicidade, com o rosto encostado em meu pescoço. Olhei para os outros e vi que eles nos olhavam, um deles, particularmente, mais para baixo, notando o que ela deixava aparecer. Não liguei muito e dei uns cinco ou seis beijos nas bochechas dela, o que nunca achei exagerado de se fazer. Segurei seu rosto perto do meu e ela me olhou contente. Lembrei-lhe baixinho de que era nosso último dia de aula e que amanhã só nos veríamos se quiséssemos, ela disse que queria e riu um pouco. Nunca mais a vi.
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5:02 PM
Sexta-feira, Novembro 03, 2006
O uem roçaãco é a inmha dvai.
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4:30 PM
Quinta-feira, Agosto 03, 2006
- Quando estou deitada assim fico pensando no que tem aí dentro.
- Aqui? No meu peito?
- É, dentro do seu peito.
- Ha, é segredo.
- Me conte, por favor!
- De jeito algum.
- Sério?
- É que só vale a pena vendo.
- Sei... Legal se eu pudesse ver.
- Quer ver?
- Como assim?
- Quer ou não quer?
- ...
- ...?
- Quero.
- Ok.
Levantou, abriu a gaveta do criado-mudo, procurou lá dentro com a mão, puxou uma faca de acampamento e empurrou-a contra o peito até a lâmina entrar por completo. O sangue jorrou no rosto da menina em uma nuvem vermelha e em jatos dispersos por todo o quarto. Serrou os ossos da caixa toráxica e tirou um pedaço retangular do próprio corpo. O sangue vazou um pouco mais enquanto ele caia no chão viscoso, morto.
A menina permaneceu parada, sentada na cama por duas horas, coberta de sangue, incrédula, em choque, olhos abertíssimos. Tomou coragem, desceu da cama, rastejou até o corpo e aproximou o rosto lentamente do buraco feito pela faca de acampar. Olhou de perto e viu um buraco escuro, algo de vermelho enegrecido, como uma poça límpida de coloração estranha. Piscou uma vez e percebeu pequenos pontos brancos, cintilantes como estrelas, espalhados por toda a cavidade aberta no peito do rapaz. No centro da imagem um ponto maior, diferente, crescia aos poucos, tomava forma aos poucos, ficava cada vez mais nítida. Piscou novamente e o que viu foi insuportável: deitados numa cama ela e o rapaz. A cabeça dela repousava no peito dele, ela dizendo que só tentava imaginar o que é que ele tinha no peito, ele dizendo que não ia dizer, que era segredo, que só valia a pena a coisa à olhos vistos, ela dizendo que queria ver, ele dizendo que ia mostrar, ela a pessoa mais contente do mundo.
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1:36 AM
Quarta-feira, Abril 05, 2006
Um banco e duas pessoas, duas pessoas e um abraço, um abraço e um beijo, uma pessoa e um segredo sussurrado, uma pessoa e um sorriso, duas pessoas no mundo, duas mãos e um nó, uma pessoa e uma cama, uma pessoa e o chão, uma pessoa é um sonho, uma pessoa e uma cama, uma pessoa e um sonho, uma pessoa e um sorriso.
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8:54 PM
Quarta-feira, Março 01, 2006
- Pela última vez: tem certeza que você quer tomar? Está ciente dos efeitos e de todos os possíveis problemas que poderão ocorrer?
- Sim, não tenho dúvidas.
- Essa droga é capaz de revelar o que vai no íntimo das pessoas, mostrando coisas que talvez você nem saiba que sente ou pensa. Por isso não se pode ter certeza do que pode ocorrer com qualquer um, entenda bem.
- Não tenho medo do que há dentro de mim.
- Cuidado, poderá se arrepender.
- Não me importa, me arrependo de muitas coisas.
- Está bem. Vamos dividir em metades.
- De acordo.
Sentados debaixo de uma pequena árvore, os dois homens dividiram o comprimido ao meio, engolindo suas partes de olhos fechados, suando pelas testas, pensando em infidáveis coisas ao mesmo tempo, de forma que ficaram assim por alguns minutos e, enfim, despertaram. Um dos homens sentiu de imediato que podia se apaixonar a qualquer momento e tomar qualquer mulher para si, fazendo-a sentir-se a mais feliz pessoa do mundo, de modo que não precisaria de mais ninguém na vida e que de agora em diante seus dias seriam plenos e seus sentimentos completos, que não teria qualquer dúvida quanto ao andamento do mundo e de todas as relações humanas, faria a mulher sentir o calor do seu corpo e que em seu ombro poderia encontrar todo o conforto existente, sendo ele seu melhor amigo para todas as horas e para todo o sempre, emanaria emoção e confiança em todas as suas palavras e em cada toque sua pele seria capaz de perceber como é bonito amar e viver por isso, aprendendo que nenhuma estória de amor jamais terminaria em um simples fechar de livro, que isso seria o maior absurdo do mundo e a maior atrocidade dos tempos humanos nessas terras que deus ainda há de apagar de todo o universo, persistindo somente a alma do seu homem e a sua no meio das infinitas estrelas e da grandiosidade de todos os astros e da felicidade que é permanecer com o rosto erguido após a morte dizendo, sem parar, eu te amo não importa o que acontecer, não importa para onde iremos, o nosso amor é o que rege o mundo.
O outro homem, o que já havia se arrependido de várias coisas na vida, estava afongando-se no próprio vômito, imaginando que não poderia existir em nenhum outro lugar um buraco tão fundo quanto este em que se encontava, rezando para alguém que lhe ajudasse a levar as coisas pra frente, que era ainda muito novo e que se ama muitas vezes na vida, que as estórias são muitas, os amigos também, e que a vida, por incrível que pareça, dura todo o tempo, assim como qualquer abraço ou beijo ou apertos-de-mão. O homem pensava neste exato momento quem, por ventura, morreria primeiro: se a esperança ou se ele próprio, engasgado nos próprios flúidos do corpo, o vômito, que, de qualquer maneira, dele fazia parte.
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6:18 PM
Terça-feira, Fevereiro 07, 2006
Abre-se o livro e as palavras estão lá. Abre-se novamente e as palavras estão lá. Com o passar do tempo abre-se o livro cada vez menos. Que diferença isso faz para as palavras? Entende?
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2:37 AM
Quarta-feira, Dezembro 28, 2005
- Quem vem lá?
- Sou eu, teu amigo.
- Ha, meu amigo. Mantenha-se longe, já daqui sinto a aspereza da tua mão cortando-me as costas.
- Quem é?
- Somos nós, a tua família.
- Minha família? Lamento, não os reconheço.
- Mas somos nós realmente.
- Acredito em vocês, mas não os reconheço.
- Alguém aí?
- Seu eterno amor.
- Aproxime-se da luz, não consigo vê-lo.
- Não posso, tenho aversão.
- Pois não?
- Sou eu, a felicidade.
- E desde quando é tão pequena?
- Desde há vinte anos.
- Identifique-se.
- Chamam-me arrependimento.
- E onde o senhor está?
- Olhe para trás.
- Quem é você que aperta-me o peito?
- Sou a única que pode fazer tal coisa.
- Não entendo.
- Dê-me mais algum tempo e você entenderá.
- Quanto tempo?
- Pelo visto, alguns dias.
- Com você tive uma conversa longa.
- Está cansado?
- Estou cansado.
- Sossegue, descansará não tarda.
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8:32 PM
Segunda-feira, Dezembro 05, 2005
Estou morto. Partido ao meio, nenhuma unha, seco até a alma. Acabou. De verdade mesmo, nenhuma gota de mojo para me felicitar, é o medo que se aproxima. Não quero ninguém por perto nessa hora, vão embora por favor. Deixem-me de lado, de bruços, coberto até a face. Quem são vocês para falar alguma coisa? São merda nenhuma. Tampo o bueiro, fico dentro. Desse cheiro é que gosto. Mentira: não gosto de nada. Mentira: não amo ninguém. Mentira, verdade é o que eu quero nesse resto de vida. Olho as minhas pegadas, nada vejo, atrás há nada. É uma pena, essa de viver e olharparatrásenãovernada. É uma pena, essa de viver e não fazer nada, não valer nada, não valho nada. Verdade: valho nada. Verdade: morto é lugar, o velho mentiu. As pernas torcidas para trás, os dedos enfiados nos olhos. Nada vejo, nada sinto. Quem vê? Quem sente? Ninguém vê e ninguém sente, todos apontam, todos mentem, dão desculpas. É uma pena, é isso que eu vivo, é nisso que eu morro. Que o Diabo me leve, que nunca me tragam de volta, que me larguem no inferno, que minha pele nunca pare de queimar, que a agonia seja eterna. Cortem meus mamilos. Acabem logo de uma vez. Acabem-se logo de uma vez, após. Me deixem em paz, é isso que peço, não retiro uma palavra sequer do que disse. Ao se olharem no espelho espero que morram. E eu sei que vão morrer. E não demorará. É uma pena. É uma dó. Meu Deus, acabo-me de chorar.
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9:16 PM
Terça-feira, Agosto 23, 2005
Onde é que estou? Morto. Morto não é lugar. Realmente, então não sei onde estamos. Será o céu? O céu nunca foi vermelho. Será o inferno? Será o inferno. Morreu de quê? Matou-me a minha mulher. Morreu de quê? Matou-me o meu pai. Pessoas perversas, pessoas perversas. Não acho, pelo menos não acho que o meu pai seja tal coisa. Diga-me o porque. Meti-lhe uma faca na barriga, fiz a faca subir até a garganta e tentei cortar-lhe a cabeça no meio. Aí ele me matou. Reconheço que seja de bom tamanho a tua morte para ti. É, começo a reconhecer também. Quem é aquele que lá vem? Deve de ser Lúcifer, o Satanás. Não sou Lúcifer, sou o vosso pai. Pai em que sentido? No de ser Deus ou no de ser o meu progenitor? No de ser o teu progenitor. Não me lembro de ter essa fisionomia, pai. Não me arriscaria a mostrar minha cara a vocês do inferno, coisa que o prórpio Deus recomendou-me. Então estás morto, pai? Claro, patife, depois do que tu me fizeste. Peço desculpas, agora já me arrependo. Não se preocupe, desculpas as terá com o Satanás. Veio aqui para quê, pai? Estou triste. Quer dizer que quando se está triste, cai-se no abismo? É o que por aí se diz. E para retornar ao Paraíso, precisa-se somente de se recuperar a alegria, certo? Errado, os que tornam-se alegres voltam à Vida. Mas pai, que tipo de gente o senhor encontrou lá então? Os que amam.
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2:34 PM
Segunda-feira, Julho 11, 2005
Texto simples de amor, esperança, encontros inesperados e outras coisas boas.
O grupo de garotos corria freneticamente floresta adentro. O que ia mais a frente devaneava sobre o lugar, as árvores, o solo coberto de folhas secas, o sol que custava a aparecer por entre as copas, era de fato um ambiente meio onírico. Os garotos soltavam algumas gargalhadas afoitas, gritavam coisas uns para os outros, estavam envoltos num clima de euforia. Trezentos metros depois, a luz do sol varreu-lhes as caras com mais intensidade: agora estavam correndo numa clareira que não mostrava fim.
Os quatro que iam mais recuados viram com desespero o que ia mais na frente desaparecer num passo em falso, como se caísse num desfiladeiro invisível, dragado por um buraco que, de repente, tinha-se posto exatamente debaixo dos seus pés. Frearam a corrida, tropeçando e respirando ofegantes. Andaram alguns metros temerosos, apoiando-se uns nos outros. Bem ali, como que traçado à régua, encontrava-se de fato um grande penhasco. Os quatro garotos arrastaram-se para a borda e, apontando os olhos para baixo, puderam ver um enorme lago e lá no meio dele, balançando os braços, o garoto.
Os de cima gritaram que fique aí, que iremos buscar ajuda, que não demoramos. O de baixo só pôde assentir, coitado dele. Passaram-se horas. O garoto sabia que o acampamento ficava longe dali e começava a se arrepender de ser garoto e de ter a idade que tinha e de ter visto tanta graça em sair correndo com os amigos, largado a família preparando a comida, dixá-la preocupada agora que tinha caído dum penhasco. Sorte a minha que não tive nada e que aqui na margem desse lago eu tenho uma sombra pra me abrigar.
Já havia passado mais de três horas que o garoto havia caído e desesperançoso, olhava fixamente para o centro do lago. De repente pôde notar um vulto caindo e ato contínuo, um barulho e muita água jogada para cima. O garoto postou-se de pé assustado: uma garota vinha nadando do centro do lago. Correu até a margem e ajudou a menina a se levantar, puxando-a para debaixo de uma árvore.
-Você está bem?
-Estou sim, só um pouco de dor nas pernas, caí de pé. E você, que é que está fazendo aqui?
-Eu estava brincando com meus amigos, correndo lá em cima. Não reparei o buraco e acabei caindo. Eles foram buscar ajuda, mas já faz muito tempo. Na certa não conseguiram chegar aqui de novo. Você também estava brincando lá em cima? Caiu do penhasco?
-Não, eu caí de outro lugar.
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1:25 PM
Segunda-feira, Maio 09, 2005
- Então adiante logo e me diga porque foi que me chamou aqui.
- Ontem.... ontem tentei me matar.
- Estás completamente louco. Qual foi o motivo duma merda dessas?
- Sabe como é, essas coisas que acontecem na nossa vida.
- Acontecem inúmeras coisas na minha vida e ainda não tentei me matar e não penso nisso como uma possibilidade. Anda, me diz logo.
- Não sei bem. Mas é que, frequentemente, eu acabo por achar a vida um pé chutando o meu saco todos os dias, e , por mais ridículo que isso pareça, dói. Mas vai lá, meus amigos são bundões e eu sou confuso. Minha namorada não presta. Não sei no que trabalhar.
- Hum, essas coisas também as sinto eu. Acho que deve haver uma espécie de particularidade em você. Faz idéia de qual seja?
- Eu não. E você?
- Eu não. E tentou se matar de que maneira?
- Dei um tiro em minha cabeça.
- Acha que sou imbecil, não é, meu filho? Você quer me dizer que deu um tiro na sua cabeça e continuou vivo e está aqui agora conversando comigo?
- Sim.
- Como é que um tiro na cabeça não te matou?
- A bala entrou por um ouvido e saiu pelo outro, pai.
- Acho que deve haver uma espécie de particularidade em você. Faz idéia de qual seja?
- Não, meu pai.
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9:48 PM
Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005
O balconista da lanchonete vizinha às escadas disse:
- O senhor tome cuidado com aquele degrau, a pedra está solta.
- Está bem.
É uma pena que só se necessite de um empurrãozinho para que toda a gente pense que o pobre homem que acaba de rolar pelas escadas abaixo tenha realmente quebrado as pernas, ou, como se sabe também da imaginação de alguns, que o coitado acabou mesmo por morrer. Tudo mentira, tudo fruto da cabeça de indivíduos que, somente por ter constado no texto o degrau de pedra solta e o irônico "Está bem", juntamente com a pequena introdução pessimista, já vão pensar o que não se deve. É impressionante como as pessoas tem essa inclinação distinta, perfeitamente apontada para baixo. É como já foi dito, só precisa de um empurrãozinho de nada e tchum, vamos todos cair sem parar.
O homem que acaba de rolar as escadas se levantou sem ajudas. Não quebrou perna nem osso algum. Um verdadeiro exemplo de saúde e firmeza, perfeito para esfregar na nossa cara, idiotas de corpo e alma, cabeças-baixas da pior espécie. Nós tropeçamos em qualquer degrau. Nós somos o que pode ser chamado de "humanamente possível". Nós aqui somos a pior coisa que já pôde acontecer nas nossas próprias vidas. Somos infelizes por convicção, somos feitos de nada, de coisa alguma, vamos todos para o inferno, vamos ser negados por toda a história da eternidade e o que vier depois disso. Somos aqueles que planejam o suicídio com quartoze anos. O meu maior medo, o que me assusta mais nessa vida é a cara de decepção das pessoas quando viram que eu não quebrei nem um ossinho desse corpo que Deus me deu e um dia há de me tomar, maldito seja. Você vá me desculpando, minha querida, mas é que isso é o que realmente me vai por dentro. Eu tenho pena de mim mesmo e de você. Eu sou um amargo. Eu sou a imagem de Deus, aquela que ser nenhum poderia se queixar de ser, mas eu cuspo na minha mão e a esfrego na minha cara. Eu esfrego esse exemplo na minha cara.
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8:07 PM
Quinta-feira, Janeiro 06, 2005
...é que quando você realmente quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você quebre as suas duas pernas.
- Boa tarde, senhor.
- Boa tarde - pegou o cartão e guardou-o no porta-luvas.
Estacionou o carro e foi subindo as escadas, pensando em que comprar, do que é que ela gosta, será um vestido, uns discos, talvez umas flores, vamos ver. Lojas de um lado, lojas do outro, parava na frente das vitrines e ficava olhando, compondo a imagem, desse jeito é melhor, daquele outro ficaria muito bom, não, esse ficaria bastante estranho. Entrou na loja de discos e procurou um vendedor:
- Sabe de um disco bom? É que eu queria dar um a minha mulher, mas queria algo novo, intimista, calmo, sabe de algo assim?
- Olha, esse aqui é muito bom.
- É, esse eu conheço. Bom mesmo. Mostra outro.
- E esse, conhece?
- Não, esse não, como que é?
- É bom, é bom.
- Isso basta, vou levar.
Saiu da loja contente com o presente, a mulher deverá gostar. Andou mais uns corredores, entrou na loja dos vestidos.
- Esse daqui, veste esse daqui, tens o mesmo tipo da minha minha mulher, vamos ver como fica. Nossa, ficou ótimo, não foi? Que você acha, hum? É, o tecido é bom de se tocar, parece confortável. Veste esse daqui agora. Não estou te enchendo o saco, estou? Não sei, acho que o outro ficou melhor. É, vou levar o outro mesmo. Embala para presente, fazendo o favor.
A loja das flores ficava ali perto. Vermelhas, amarelas, brancas, roxas, flores de vários tipos, cheiros, essas coisas que as flores têm.
- Essas daqui feitas em bouquet ficam maravilhosas, o senhor não tem noção. Colocamos também uns ramos disso daqui e daquele outro também, fica lindo.
- As mulheres gostam, não é mesmo?
- Meu senhor, qual a mulher que não gosta dumas flores? É de aniversário?
- Não, é que eu amo a minha mulher mesmo.
- Ha, sei como é...
- Pois bem, arruma esse bouquet.
Ia em direção ao estacionamento quando o telefone tocou.
- Oi.
- Onde é que você se encontra, pode me dizer?
- Estou aqui no shopping, comprando umas coisas. Umas coisas, nada demais não.
- E volta agora?
- Volto agora.
- Então espero por ti.
- Ouvir isso foi a melhor coisa que me aconteceu nesses últimos dias.
- Estou te esperando, quero te dizer mais coisas.
- Até mais.
- Até mais.
O balconista da lanchonete vizinha às escadas disse:
- O senhor tome cuidado com aquele degrau, a pedra está solta.
- Está bem.
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10:25 PM
Terça-feira, Novembro 23, 2004
A maçaneta estava até um pouco escorregadia, girou umas duas vezes e acabou entrando mesmo. Passou pela sala, corredor, viu que a filha chupava o dedo na cama. Foi para a suíte. As cortinas entreabertas, aquela luz branca que batia na parede, a mulher que dormia. Tirou as roupas mais pesadas, largou a sacola no chão e ficou lá olhando, em pé com os braços largados. Aquele cabelo solto, uns fios que caiam pela testa, os dedos que tocavam levemente o rosto, os olhos bem cerrados, as ruguinhas entre as sobrancelhas daquele sonhar compenetrado, a camisola cor de pérola, os travesseiros bem altos, que é isso que estou sentindo. Chegou-se na cama, se abaixou e deu-lhe um beijo de lábios cheios na bochecha. Aquele cheiro de pessoa amada, incomparável, insubstituível, que invade o corpo, deixa o coitado leve, leve, que me ofusca o olhar, que vai me levando para um lugar diferente, bem longe daqui, bem perto de ti, lugar maravilhoso, meu Deus, não consigo fazer outras coisas, só penso em você, minha querida. Não se arriscou nem a tocar na mulher, infeliz desse homem. Mas não teve jeito, ela acordou. As mãos ficando quentes, o coração parecendo que vai explodir, aqueles olhos que me olham, que me engolem. Outro beijo inevitável, a moça sem entender nada, era só o marido que chegava do trabalho. As perguntas "Como foi que passou o dia? As pessoas foram verdadeiras contigo? Andou pensando em mim, por acaso?". O marido, que já não aguentava de tanta felicidade, respondeu olhando para os lençóis amassados "Você é a única pessoa desse mundo todo, esse vazio que é o meu trabalho, o meu carro, o meu asfalto, os meus cachorros atravessando as ruas, as minhas árvores que passam, as minhas vontades todas, amor da minha vida". Apegou-se aos lençóis - outro beijo na mulher era morte certíssima.
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2:17 PM
Sábado, Novembro 13, 2004
Acabou de decolar, tudo se desgrudava do chão e só pensava "Meu Deus, o que é isso que está acontecendo? E eu nem beijei a minha mãe hoje.". Imaginem que não tivessem peso, toda a paisagem subisse, o som parasse, agora tudo é lento, o céu acabou de aparecer, todo ele. Decolava, em oblíquo movimento, como uma seta lançada para cima e que depois cai com toda a velocidade, perfurando, rasgando, ameaçando "Estou chegando, não perde por esperar, seu escroto.". E era isso mesmo, mas era muito pesado e grande. Grande também. Eis a sensação nesse extao momento: o vento passando rapidíssimo, batendo nos olhos, parecia que os olhos iam rasgar, sabem como é, os cabelos não paravam quietos, olhava para os lados e via os amigos com as cabeças viradas todas para a frente, aquelas caras de agoniados, com as bocas abertas, gritando alguma coisa que não conseguia entender, claro, e o fundo que não parava de se mover, que desespero. "Mas que porra é essa, custo a acreditar que isso acontece comigo. Com os outros não me importo, fazem parte da cena. Mas eu? Eu que nem fiz aniversário esse ano?" A violência foi tremenda. Ouviu o barulho, sentiu o estrondo, tudo se sacudindo. Agora os ossos é que começaram a quebrar, depois da cabeça ricochetear no banco, esbagaçando-lhe o nariz. Nenhum braço estava no lugar, não sentia as pernas. Da amiga do lado se via muito pouco, vermelhinha que só ela. O da frente nem estava sentado mais no banco, devia etá por algum lugar lá fora, esmagado contra o chão, sem mover dedo, com os líquidos todos fora do corpo, os ouvidos tapadinhos, nessa tristeza infinita que é estar com o rosto enfiado na terra.
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6:20 PM
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